Muito além do Custo Brasil: O desafio da produtividade nas empresas brasileiras

A produtividade é um termômetro implacável que expõe as fragilidades e forças de uma economia.

A leitura de um documento recente despertou minha curiosidade. Gerado pela fintech irlandesa Stripe, ele discute a discrepância entre a produtividade das economias americana e a europeia.

De imediato, pensei em pesquisar sobre o que acontece no Brasil e a constatação, para surpresa de ninguém, foi que os brasileiros têm uma métrica de produtividade muito mais preocupante do que a europeia.

É comum se colocar a culpa de nossa situação no nosso famigerado “Custo Brasil”. Entretanto, é minha opinião que uma revisão honesta das condições internas das empresas, no que diz respeito a processos, tecnologia e capacitação, é vital para reverter essa situação. Sem esse olhar crítico, não sairemos do incômodo lugar que estamos hoje.

Vamos discutir um pouco mais em detalhes esse tema.

A carta anual para acionistas da empresa irlandesa Stripe trouxe uma análise muito interessante sobre a produtividade de profissionais americanos e europeus. O dado destacado foi o valor gerado por hora trabalhada, calculado a partir do PIB total dividido pelo total de horas trabalhadas. Para os Estados Unidos, esse valor estava por volta de US$ 104/hora trabalhada em 2023, enquanto na Comunidade Europeia, o valor estava em torno US$ 85/hora trabalhada (*). O documento apresenta sua visão do porquê dessa disparidade.

De imediato, tive a curiosidade de fazer um exercício rápido, apenas uma “conta de padeiro”, para ver como estamos no Brasil. Obtendo dados do IBRE/FGV para o ano de 2023 para o total de horas trabalhadas (**) e o PIB como relatado pelo IBGE, (corrigido por paridade de preços), a conta simples de dividir o PIB brasileiro pelo total de horas trabalhadas resultou em um valor de US$ 22/hora trabalhada! A produtividade no Brasil era 4,5 vezes menor que a americana. Certamente, essa conta feita sem considerar uma série de fatores está distorcida, pensei. Pesquisando um pouco melhor, os dados do Conference Board (***), levando em conta muitos outros fatores e correções, mostrou outro valor. A produtividade brasileira está em um patamar de US$ 25/hora trabalhada. Melhor, mas ainda apenas um quarto da alcançada nos Estados Unidos.

Esses números são, sem dúvida, alarmantes e impõem uma reflexão profunda sobre suas causas.

Frequentemente atribui-se a baixa produtividade ao famigerado “Custo Brasil”, um conjunto de entraves relacionados à infraestrutura e trâmites burocráticos e tributários que encarecem e dificultam os negócios em nosso país.

Evidentemente, essa crítica possui fundamento; no entanto, não pode servir como desculpa única para encobrir deficiências internas nas organizações. Afinal, ainda que fatores externos impactem consideravelmente o desempenho das empresas, é imprescindível reconhecer a necessidade de olhar para dentro, avaliando de maneira franca e rigorosa as práticas internas que afetam diretamente a eficiência operacional.

É preciso adotar uma abordagem metódica e consistente para enfrentar esse desafio no que diz respeito a processos, tecnologia empregada e capacitação dos funcionários, comparando a situação da empresa com equivalentes em outros países ou concorrentes (locais ou não).

Sem esse diagnóstico, é fácil culpar ele, o “custo brasil”.  Agora, uma vez constatada diferenças e atrasos, como melhorar, evoluir?

Primeiro, não há melhoria possível sem uma mensuração, afinal, o que não pode ser medido jamais será aprimorado.  Métricas de qualidade e de produtividade devem ser estabelecidas para que exista uma base inicial para se trabalhar.

Em segundo lugar, medir apenas não basta. A análise dos dados coletados deve ser criteriosa e direcionada, transformando informações em planos e definição de metas claras e objetivas.

E terceiro, implementar esses planos, pois só assim será possível alcançar mudanças efetivas e uma cultura de melhoria contínua e sustentável, olhando sempre para processos, tecnologia e capacitação.

Portanto, embora seja sedutor atribuir exclusivamente à legislação, à burocracia e ao governo de plantão a culpa pelos baixos níveis de produtividade, essa visão simplificada pode impedir o avanço das soluções necessárias.

É essencial, além disso, que cada gestor brasileiro assuma a responsabilidade de realizar uma autocrítica honesta sobre como sua empresa tem operado e onde estão as verdadeiras oportunidades para crescimento. Somente com esse compromisso com a verdade interna será possível avançar, superando as limitações atuais e abrindo caminho para uma produtividade à altura do potencial brasileiro. E sua empresa, como está? Vocês têm planos de melhoria contínua e uma cultura de inovação?

(*) https://stripe.com/br/annual-updates/2024

(**) https://ibre.fgv.br/observatorio-produtividade

(***) https://www.conference-board.org/data/economydatabase


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